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Análise · Suprimento de energia

Energia para o Redata: o gargalo é a rede

O que os dados oficiais de ONS, EPE e CCEE mostram sobre a conexão de datacenters à rede elétrica.

21/10/2026 · Márcio Biehl Hamerschmidt, responsável técnico da i9Data

Resumo em 12 telas · 1min23s

O Redata trata de tributos e contrapartidas. Nenhum desses benefícios, porém, tem efeito para um datacenter que não consegue se conectar à rede. Em 15 de outubro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) homologou o resultado do primeiro processo competitivo de acesso à Rede Básica, e os números ajudam a entender por que o suprimento de energia passou a ser a questão central para quem planeja se habilitar ao regime.

Reúno aqui os fatos e dados oficiais disponíveis até agora.

01Rede Básica ou distribuidora: dois caminhos diferentes

A Rede Básica é o conjunto de instalações de transmissão em 230 kV ou mais, operadas sob coordenação do ONS. É nela que costumam se conectar as cargas de dezenas ou centenas de megawatts, como os grandes campi de datacenters. Cargas menores se conectam à distribuidora local, em tensões como 69 kV ou 138 kV, sob as regras da Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, que vale também para consumidores livres, complementada pelo Módulo 3 do PRODIST. Nesse caso, é a própria distribuidora que faz os estudos e responde ao pedido.

O caminho da distribuidora não é livre de restrições. A rede local também tem limites de capacidade, as distribuidoras têm compromissos regulatórios a cumprir, e nem sempre as obras contratadas ficam prontas no prazo de que o empreendimento precisa.

Desde o Decreto nº 12.772/2025, que instituiu a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), o acesso à Rede Básica deixou de seguir uma fila cronológica e passou a ocorrer em temporadas de acesso coordenadas pelo ONS:

  • o interessado se cadastra e apresenta uma garantia de participação (carta-fiança ou seguro, não um pagamento);
  • o ONS compara a demanda pedida com a capacidade remanescente de cada ponto de conexão;
  • se a demanda cabe, o atendimento é direto;
  • se não cabe, há processo competitivo, com lances em R$/kW;
  • o vencedor paga o prêmio, recebe o Diagnóstico Prévio de Acesso (etapa criada pela PNAST, anterior ao parecer de acesso) e assina o contrato de uso do sistema de transmissão, com nova garantia.

A partir de 2027, o ONS prevê pelo menos duas temporadas por ano.

02O primeiro leilão: 228 MW em São Paulo, só a partir de 2029

O processo competitivo ocorreu em 6 de outubro e foi homologado em 15 de outubro (Comunicado Relevante ONS nº 08/2026). Foram alocados 228 MW em pontos de conexão do estado de São Paulo a três projetos de datacenter, com acesso a partir de 2029. Quatro inscrições ficaram sem atendimento. Segundo a DCD, os sete inscritos somavam 451 MW de demanda habilitada, ou seja, cerca de metade ficou de fora.

Os 228 MW parecem pouco diante dos mais de 5 GW médios que o ONS projeta para 2030, mas medem coisas diferentes. A projeção se apoia em projetos que já tinham contrato ou parecer de acesso pelo regime anterior, a maior parte em São Paulo. O leilão disputou apenas a capacidade que sobrou, em quatro pontos de conexão, entre pedidos novos. Ou seja, 228 MW é o que restava de rede nesses pontos para quem chegou depois, e só a partir de 2029.

Para calcular essa sobra, o ONS considera ocupada toda a capacidade de quem já tem contrato de uso, parecer de acesso vigente ou pedido admitido, pelo valor integral. É a mesma fila que, na previsão de carga, o operador pondera em 50%, por admitir que parte dela não vai se concretizar. Na prática, há rede reservada para projetos que talvez nunca se conectem, e quem chegou depois disputou apenas 228 MW.

No mesmo processo, outras cargas foram atendidas diretamente, sem disputa, em pontos com folga, como uma mineradora no Pará com 547,9 MW. A escassez, portanto, é localizada: está nos pontos de conexão de São Paulo, justamente onde a maior parte dos datacenters quer estar.

03O que o prêmio de R$ 817/kW paga

O prêmio médio dos vencedores foi de R$ 817,15 por kW, o que corresponde a algo em torno de R$ 186 milhões pelos 228 MW (cálculo aproximado).

Esse valor não financia obra nem compra energia. Pela sistemática do ONS, ele é destinado à modicidade tarifária: entra no orçamento do operador e reduz os encargos de uso da transmissão pagos por todos os usuários. O que o vencedor obtém é apenas a prioridade sobre uma capacidade escassa.

A conexão física é custo à parte. Pelo modelo atual, o acessante paga as instalações até o ponto de conexão (o vão na subestação, a linha e a subestação própria), além da tarifa mensal de uso. Os reforços dentro da Rede Básica são planejados pela EPE e pagos por todos via tarifa. A ANEEL discute desde março de 2026 a chamada "conexão profunda", em que o acessante passaria a custear também os reforços (Tomada de Subsídios nº 5/2026), o que ainda não está em vigor.

04Os grandes números, e o que cada um mede

Os números sobre a demanda de datacenters vêm de fontes e etapas diferentes. Antes de chegar à projeção oficial, vale separar cada um:

  • Cerca de 7 GW: 38 pedidos de acesso de datacenters à Rede Básica formalizados pelo ONS em fevereiro de 2026, 20 deles em São Paulo, somando 3,9 GW (ONS).
  • Cerca de 8 GW: pedidos de conexão de datacenters recebidos pelo grupo CPFL em 18 meses, sem etapa nem unidade definidas (NeoFeed, 14/10).
  • 20 GW: demanda de datacenters projetada para os próximos dez anos, segundo o diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da EPE, Thiago Ivanoski (evento da FGV Energia, 18/08). Ele estima que o Redata pode antecipar essa curva em cerca de cinco anos.
  • 13,7% ao ano: crescimento projetado do consumo de energia dos datacenters até 2036, o maior do setor de serviços (EPE, Plano Decenal de Energia 2036, em consulta pública).
  • R$ 1,6 bilhão: obras de transmissão recomendadas em estudos da EPE para abrir uma margem de quase 4 GW em São Paulo, com outros reforços em avaliação.

Esses números não podem ser somados. Uns são pedidos, outros são projeções; uns estão em potência, outros em energia média. Além disso, os totais de pedidos tendem a superestimar a demanda real: durante os estudos de viabilidade, um mesmo empreendimento costuma consultar mais de um ponto de conexão. Isso infla a soma global de pedidos, mas não afeta a projeção do ONS, que só considera contratos e pareceres de acesso.

05O que o ONS efetivamente projeta

O planejamento da operação (PLAN 2026–2030), feito em conjunto por ONS, EPE e CCEE, passou a destacar a carga de datacenters na Rede Básica. A previsão para 2030 mudou muito em oito meses:

  • PLAN original (dez/2025): 2.157 MW médios
  • 1ª revisão quadrimestral (abr/2026): 3.457 MW médios
  • 2ª revisão quadrimestral (ago/2026): 5.653 MW médios

É um aumento de 2,6 vezes.

Esses números não incorporam especulação. A metodologia considera 100% da carga dos projetos com contrato assinado e apenas 50% dos que têm parecer de acesso favorável, o que equivale a admitir que metade deles pode não se concretizar. Pedidos ainda em andamento ficam fora da conta. A projeção oficial acompanha a fila de contratos, e não o apetite do mercado. Por isso ela salta a cada revisão.

E até lá? A trajetória da 2ª revisão é de 315 MW médios em 2026, 942 em 2027, 2.390 em 2028, 3.934 em 2029 e 5.653 em 2030. Até 2027, a carga de datacenters na Rede Básica cresce pouco mais de 600 MW médios. Cerca de 88% do crescimento previsto fica para 2028 a 2030. Em termos de participação, os datacenters passam de cerca de 0,4% da carga do Sistema Interligado Nacional em 2026 para cerca de 5,5% em 2030 (cálculo com os números da mesma revisão).

Há duas leituras possíveis. Os números de 2026 e 2027 podem estar subestimados, porque parte da expansão ocorre na distribuição e não entra nessa conta. Ou podem ser realistas: sem rede disponível, a expansão de grande porte simplesmente não acontece antes de 2028 ou 2029, o que coincide com o acesso a partir de 2029 vendido no leilão de São Paulo e com o tempo necessário para as obras de transmissão.

06O ponto cego: a distribuição

Os pedidos de conexão feitos às distribuidoras não entram nesses números e não têm um painel público consolidado. Cada distribuidora trata os pedidos na sua área de concessão.

Em entrevista ao NeoFeed (14/10), o presidente da CPFL Energia deu uma dimensão do que fica fora das estatísticas da Rede Básica: "Campinas tem 350 MW de carga e recebo pedidos que quadruplicam isso". E reconheceu o limite: "Talvez não seja possível aproveitar 100% do potencial de expansão do data center".

As distribuidoras também recebem pedidos que podem não se concretizar. Diferentemente da Rede Básica, a regulação da distribuição não exige garantia financeira de grandes cargas, e a ANEEL decidiu, em março de 2026, avaliar essa exigência caso a caso.

07Números que não conversam entre si

De um lado, há pedidos de conexão na casa de vários gigawatts, e a Brasscom estima cerca de R$ 300 bilhões em equipamentos para datacenters até 2030. Do outro, os dados oficiais são tímidos: a estimativa de renúncia fiscal do Redata feita pela Receita Federal, à época da medida provisória, foi de R$ 5,2 bilhões em 2026 e cerca de R$ 1 bilhão por ano nos anos seguintes. O planejamento elétrico, por sua vez, considera só 315 MW médios de datacenters na Rede Básica neste ano.

As duas pontas dificilmente estão certas ao mesmo tempo. Ou o investimento será bem menor do que o anunciado, ou a renúncia e a infraestrutura de conexão estão subdimensionadas. A rede é forte candidata a ser o fator que vai ajustar essa conta.

08O que ainda não tem resposta

  • Quando sai o decreto? Segundo a imprensa, ele está parado na Casa Civil, e empresários já esperam adesão efetiva só em 2027. A suspensão de PIS/Cofins e IPI vale apenas até 31/12/2026.
  • O gás natural conta como fonte de baixa emissão? Fazenda e MME/MDIC seguem divergindo.
  • Como será comprovado o suprimento renovável ou de baixa emissão? As associações do setor elétrico pediram requisitos e prazos objetivos.
  • Quem vai pagar os reforços da rede? A "conexão profunda" está em discussão na ANEEL.
  • Qual é o tamanho real da fila nas distribuidoras? Não há painel público.
  • Como conciliar um acesso à rede a partir de 2029 com um regime de cinco anos?
  • Quanta capacidade será ofertada em São Paulo na próxima temporada de acesso, cujas instruções o ONS prevê publicar em dezembro?

→Para quem vai se habilitar ao Redata

  • A conexão é caminho crítico. Em São Paulo, quem disputou o primeiro leilão só terá acesso a partir de 2029.
  • Escolher o local pelo ponto de conexão, e não só pelo terreno, pode evitar a disputa. Há capacidade disponível fora dos pontos mais concorridos.
  • A energia também é contrapartida do Redata, que exige suprimento renovável ou de baixa emissão. Grupos geradores a diesel garantem a continuidade em emergências, mas não substituem a conexão à rede.
  • A contrapartida de 2% em PD&I continua obrigatória para quem se habilitar, proporcional aos equipamentos adquiridos com o benefício.

O regulamento do Redata ainda não foi publicado. Quando sair, o prazo para conectar à rede pode ser o fator que define quem consegue, de fato, usar o benefício.

A i9Data trabalha para que o Redata seja um sucesso e se converta em desenvolvimento científico e tecnológico para o Brasil. Por isso mesmo, não podemos deixar de tratar os obstáculos que já estão no caminho, e o gargalo de energia é o mais evidente deles.

Fontes

Acompanhe as atualizações da regulamentação do Redata e da contrapartida de PD&I.

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